Não é nenhuma Brastemp não...
"Estou lavando roupa neste momento. Enquanto acompanho atráves da janelinha da máquina de lavar as minhas roupas remexendo de um lado para o outro em meio de água e sabão, compro um pacotinho de cookies e uma lata de coca-cola, naquelas máquininhas 'super-poderosas', onde você coloca algumas moedinhas e escolhe o biscoito e a bebida que você quiser.
Tem máquininha para comprar sabão também. E tem também a máquininha de trocar notas por moedas. Não para de entrar e sair gente da lavanderia. O lugar é grande, tem dezenas de máquinas de lavar de um lado, e outras dezenas de secar do outro lado. Ninguém fala com ninguém. As pessoas mal se olham.
Para passar tempo e quebrar o tédio escrevo essas linhas.
Lembro-me do último domingo que passei no Rio de janeiro. Passei o dia inteiro na praia de Ipanema. Sozinha. Bom, eu e a skoll. Caminhei até o Arpoador, apreciando o fim da tarde. Era um belo dia na Cidade Maravilhosa. Sol. Alegria. Início de verão. Linda paisagem.
Voltando para casa, peguei um ônibus até a Praça Mauá. O centro da Cidade estava deserto naquele dia. Ainda na Praça Mauá, sentei-me numa esquina, num meio-fio, enquanto esperava o ônibus para Nilópolis. E dali vi o lado feio do Rio. Vi a miséria. Vi a descompaixão. Vi o que ninguém vê. Ou melhor, vi o que todo mundo finge não ver.
Enquanto ainda morava no Rio, eu frequentava uma faculdade no centro da Cidade, e eu andava por aquelas ruas às 7h da manhã, às 2h da tarde, e muitas vezes às 10h da noite. Não importava a hora do dia, eu sempre cruzava com mendigos, crianças de rua, 'trombadinhas', que faziam-me apertar o passo e até mesmo atravessar a rua para trocar de calçada. A gente não olha, não encara. É bem mais fácil desvencilhar o caminho. Desviar a realidade.
Porém, naquela tarde de domingo eu não escapei da realidade. Era eu encarando a pobreza, encarando a miserável vida daquelas pessoas na minha frente. Bem ali na minha frente. Fiquei um bom tempo observando. Vi uma criança segurando um bebê que repetia a mesma coisa para todo mundo que passava perto "tia, tia, tem um trocado?". E ninguém ouvia. Ninguém via.
É muito mais conveniente ignorar do que pensar na profundeza do problema. É muito mais fácil desviar o caminho e pensar que você não tem nada haver com aquela situação. Afinal, você paga impostos e vota a cada eleição. Não é seu dever dar esmolas. Não é seu dever deitar a cabeça no travesseiro e pensar que tem milhares de pessoas lá fora passando fome, morando debaixo de pontes e viadutos. Pessoas essas, que têm como destino a criminalidade. A CRIMINALIDADE. Talvez, seja essa a única escolha que elas têm na vida. O que é certo e errado? Quem vai ensiná-las? A mãe que cresceu no mesmo meio? Ou o pai que segura um canivete para ganhar uns trocados?
Precisamos aprender o que é ser cidadão brasileiro.
Não. Não estou falando em vestir a camisa verde e amarela, colocar a mão no peito e cantar o hino nacional de quatro em quatro anos."
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As fotos foram tiradas por mim. Naquele fim de tarde de domingo.
As crianças as quais eu me referia estavam em uma outra esquina, há poucos metros de distância. E a mulher das fotos estava grávida.
Recomendação: ASSISTA o documentário do Ônibus 174!!!

